Por lugares incríveis (J. Niven)

Uma resenha de livro precisa falar sobre um livro e sua história. Mas Por Lugares Incríveis me fez pensar muito sobre várias histórias que já escutei por aí, principalmente sobre o tão falado assunto da Baleia Azul. Que poucos realmente conhecem, muitos tem preconceito e todos tem opinião. Então vou apresentar o livro da Jennifer Niven de outra maneira.

A história do livro Lugares Incríveis é contada por dois adolescentes com suas típicas personalidades americanas. Theodore é o menino “aberração” da escola, melancólico, briguento, que se veste estranho e vive faltando nas aulas. Violet, por sua vez, é graciosa, popular, namora o jogador de futebol mais bonito e vive nas festas dos “cool kids”. Mas ambos tem em comum algo que, como já vimos em diversas tramas, vai aproximá-los. E sim, tudo começa com um projeto da escola, no qual eles tem que viajar pelo estado onde vivem e conhecer diferentes pontos turísticos – os mais loucos possíveis, de preferência. O humor da autora é bem pontual, sua escrita é fluída e a história passa com você virando as páginas querendo saber um pouco mais – e aquele pouco mais que nos faz terminar o livro em poucos dias.

O que faz esse livro ser diferente dos outros e valer a pena? Sua história. Os clichês são apenas pontos estruturais do enredo, que se desenvolve alternando a narrativa entre os dois personagens e começa quando ambos se vêem na torre mais alta do colégio. O que eles estavam fazendo ali? Apenas lidando com seus sentimentos, tentando achar soluções e saídas para os becos que se encontravam: “… e se eu pular?”.

O livro trata a depressão, o trauma e o suicídio de uma forma peculiar. Nos mostra o ponto de vista da pessoa, seus sentimentos, suas confusões, suas preocupações. Os sentimentos das personagens são tão reais que você passa a entender. Sabe quando alguém conta uma história e você responde “aaahh entendi” – muitas vezes você não entendeu bulhufas, eu sei (e não julgo porque sou dessas), mas tem vezes que você finalmente entendeu. Parece que a pessoa já explicou a mesma coisa mil vezes, mas vem um e fala a mesma coisa de forma diferente e… click.

Essa história realmente me fez ver o que está acontecendo na cabeça da pessoa, o que a depressão faz com as pessoas. Sempre fui daquelas que pensei “mas se está se sentindo assim, é só fazer tal coisa, uai”. Não, Ana. Não é “só fazer”. Não é simples assim. Esse livro me mostrou que a depressão lida com fatores psicológicos que nós não conseguimos enxergar. Mostrou que as pessoas julgam apenas se o sorriso está no rosto ou não, a vida corrida não nos deixa realmente se importar com o que está atrás da máscara. Ou ainda, elas até percebem que a pessoa não está bem, mas não sabem como lidar com uma pessoa toda estilhaçada por dentro. Tem tanta coisa acontecendo na nossa própria vida, que o problema do outro é só um fardo a mais que não quero carregar.

Não sou psicóloga, terapeuta, médica ou perita no assunto para dar dicas, julgar pessoas, apontar o certo e errado. Mas acredito que consigo olhar para essas discussões sobre o Baleia Azul sob outra perspectiva, porque esse livro me mostrou algo além do comum, além do que eu já convivi. Por esse motivo convido as pessoas a lerem esse livro. Pais e mães, leiam para que acreditem na importância de parar tudo, uma vez ao dia, olhar pro seu filho e enxergar lá dentro, saber o que realmente acontece com ele, como ele se sente nos ambientes que circula. Filhos, irmãos, primos leiam esse livro para perceberem a importância de não zoar aquele que está do seu lado, para perceberem que as vezes seu amigo/mãe/pai/tia precisa que você pergunte sobre ele, sobre sua família, que se interesse por sua vida. Veja se a pessoa precisa de ajuda, seja de qualquer tipo.

Parece que o livro vai ser pesado, te deixar down o dia todo. Por incrível que pareça, não. Ele vai te contar uma boa história e a lição de moral vai vir naturalmente . 🙂

Quanto tempo se espera por alguém?

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Eu te esperei. Esperei sua resposta, sua vontade ou qualquer indício de que aquela noite tinha sido especial pra você também. E quando você não me respondeu mais, não me ligou, nem perguntou de mim… eu desisti. Sua trouxa, isso é pra aprender a ser mais sensata, não se apaixonar tão facilmente e não se envolver. Agora sai do conto de fadas e volta pra realidade.

Sabe, há um tênue limite entre se jogar no desconhecido e virar as costas e correr. As vantagens de se jogar você não tem como mensurar: é impulso, é vontade, é pular sorrindo, sentir a queda e lidar com as consequências depois. Quando você corre… o que sobra, além do que você já tem, é a ideia d0 que você poderia ter tido – o que não é muito mais legal. Quando você finalmente se sente segura, recupera o fôlego e olha de longe pro lugar onde estava… só então se consola com as coisas horríveis que poderiam ter acontecido: eu poderia ter me envolvido, vivido os altos e baixos de cada mensagem não respondida, surtar toda vez que você me chamasse, lidar com cada toque, beijo e sentimento que viesse. Eu poderia sentir tanta coisa! Como lidar com todo esse fluxo de sentimentos junto com o trabalho, a minha vida e o meu cachorro? Será que seria bom? Será que era o que eu precisava?

No momento, acho que não era o que eu precisava. Eu tentei te chamar pra sair, forcei um café, um lanche ou uma bebida e só obtive ‘não’ como resposta. Cansei e bem sei que te mandei uma mensagem falando exatamente isso: “tentei, cansei de tentar e desisti”. Até hoje eu pensei que tinha simplesmente desistido. Porém, olhando pra trás, percebi que não foi uma desistência… Eu fugi. Fugi no último momento, corri de volta pro meu mundo, onde eu conseguiria manter o orgulho e não precisaria ir atrás de alguém. Veja bem, eu estava aprendendo a gostar de mim, a viver comigo, a ser completa sozinha e fazer todo o processo de reconhecer um eu que se perdeu no meio do próprio caminho. Como podia me permitir buscar a felicidade no outro? Era um momento meu. Então usei toda a minha habilidade de ser chata e dura nas minhas decisões: Fiz força pra deixar tudo como uma feliz lembrança. Como naqueles filmes que você vive uma experiência linda e depois volta nela pra recordar com sorriso no rosto, um chá na mão e um livro esquecido no colo? Assim. Ia ser uma feliz lembrança. Ponto.

Mas eu não esperava que você iria reaparecer. Não pensei que ia te encontrar numa festa qualquer, sem preparação, sem encenação e sem espaço pra correr. Foi muito rápido, quando me dei conta você já estava na minha frente, recusando a bebida que eu oferecia. E sinceramente? Naquele momento não pensei em fugir. Não pensei em como agir, não pensei no que falar e não sei nem se consegui absorver direito a cor da blusa que você usava. Foi sem pensar que refleti seu sorriso, segui seus olhos e me encaixei nos seus braços prontos para me abraçar.

Afinal, acho que foi você que me esperou. Obrigada pela paciência.

 

Pelo poder de não expressão

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Terça de manhã fiz meu ritual: acordei, coloquei música, arrumei o quarto, me troquei e fui tomar café com palavras cruzadas como adoçante. Meu pai veio me perguntar se eu tinha visto a foto que ele mandou no dia anterior e comentei que vi sim, estava linda, mamãe feliz toda trabalhada na pose né.
Peguei minhas coisas e fui pro trabalho. cheguei antes, como de costume, para aproveitar uns minutos de paz e organizar a agenda. Liguei o computador, abri e-mail e o skype. Recebi uma mensagem gigante de uma colega do trabalho, dizendo que estava chateada comigo pois  recusei dar carona pra ela. Céu, como isso? Eu saí mais cedo ontem, não tinha visto a mensagem dela, me perdoa.
Na hora do almoço, liguei o wifi para ver as notificações. Sim, estamos em 2015 e eu desligo o wifi durante o trabalho para não me distrair dos afazeres. Eu poderia colocar o celular no silencioso, mas ele pisca. Eu posso guardá-lo na gaveta, mas eu sei que ele pode piscar… De qualquer forma, liguei e recebi uma mensagem do meu irmão perguntando se eu tinha visto a mensagem que ele mandou de manhã. Sim, eu vi, só não respondi ainda, mas está tudo bem, depois eu deposito, obrigada.
Depois do trabalho fui direto para o treino e minha amiga perguntou se eu vi a mensagem que ela deixou perguntando o número do pedreiro. Puts, esqueci de pegar! Mas vi a mensagem, hoje a noite te mando. Cheguei em casa cansada pós treino, tomei banho, fui jantar. Aproveitei para ver novamente as notificações do celular e então fui responder a mensagem que recebi na sexta-feira: “Bruna, desculpa! Saí sem o 3G ligado, mas você devia ter ido ao teatro, foi lindo!”/”Nina, me perdoa, mas não pude ir no palquinho quinta… Trabalho sexta de manhã, fica foda. Mal não responder antes.”/”Le, eu vi sua mensagem. Eu te ajudo, eu te amo. Me manda todas essas ideias por e-mail? Esses áudios me deixam louca”/”Mi, como está London, baby?”/”Amora, eu não pude ir tomar café no domingo, estava em Patrimônio. Podemos marcar nesse fim de semana?”/”Jão, teve GIG sábado, véi! Avisa antes”. E a lista continua.
As desculpas já fazem parte da rotina. Mas vejam bem, não faço por mal… e não gosto que seja assim. Eu respondo quando posso, quando quero, quando tenho tempo livre pra responder as banalidades. Do contrário, faço outras coisas. Gosto de parar e ficar relembrando o jeito que ele segurou minha mão, de tomar chá e ler com os pés enfiados debaixo da almofada, de escutar o som da chuva e imaginar uma história mirabolante de como as formigas estão desviando dos asteroides formados pelas gotas. Eu fico tanto tempo plugada na internet, nas cobranças, nos afazeres… Que no meu tempo livre, não quero isso. Quero só… viver.
Então, da minha parte, peço apenas que não me espere. Por favor, não espere os riscos azuis. Não estou negando o role, a ideia, o combinado. Quando tenho que responder, o farei. Se combinarmos algo, estarei lá. Se não aparecer, pode ter certeza que não marquei na agenda ou achei mais legal ver um filme, confesso. Mas de vez em quando… deixe estar. É só meu jeitinho. Não brigue comigo, não me cobre… Me entenda. Passamos tanto tempo tendo que fazer coisas, ver pessoas, montar projetos, ler artigos, ver filmes, participar de discussões… Para. Respira. Escuta. Respira. Olha. Oi. Vem cá… aquela nuvem não parece um lagarto?

Tonight, the foxes hunt the hounds

IMG_7606 edited II

Are you ready for another bad poem?

Estou vivendo uma crise. Pode ser da idade, dos acontecimentos ou simplesmente de uma tpm infinita, não sei. Não quero saber. Só gostaria de ter coragem de destrancar o portão e confrontar esse sentimento pesado que se instalou no meio do peito, ali, deitado confortavelmente na curva do pulmão. Ah, seu safado, escolheu um lugar estratégico. Quando quer chamar a minha atenção, basta um movimento… e fico sem ar, aquela sensação de que estão tirando seu chão, pegando o leme e direcionando para o meio do furacão. E ele tem boa mira. O que fazer se você está no mar aberto, em uma tempestade emocional e em um navio direcionado pro olho de um maldito furacão?

Ele adora minhas fantasias. Basta elas começarem a tomar forma para ele tomar conta, levá-las a outro patamar, brincar de expectativa x realidade. No começo até que gostei da brincadeira. É divertido ver seus maiores cenários com novas e criativas reviravoltas que você não pensaria antes. É como soltar uma caixa de bolinhas pula-pula em um quarto trancado e assistir a destruição… Brincamos 3 vezes na pura alegria de criança, mas depois nos cansamos de pegar todas elas e colocar de volta na caixa. E o que resta é a bagunça consequente. Troque as bolinhas por expectativas e os estragos pela realidade. Entendam então como ele se diverte. Ingênua que sou, percebi só depois.

Aprendi como lidar, não tenham dó. É simples: não lhe dou mais atenção, não escuto mais suas histórias e tento não deixá-lo confortável para grandes movimentos. Reduzi os efeitos, mas sei que ele está ali, à espreita. Minha única chance é liquidá-lo com tática de guerra: surpreendê-lo quando estiver dormindo. Ele não sabe que a alegria espontânea preenche a alma com esperança. Ele não sabe que as cores da expectativa colorem a realidade. 

Fall Out Boy feat. Elton John – Save Rock and Roll

 A.

Viagem ao centro da Terra (J. Verne)

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Et quacumque viam dederit fortuna sequamur.
Que cada um siga o caminho que sua fortuna lhe fornece.

Eu nunca tinha lido Júlio Verne. Por ser um escritor que produziu grande parte da sua obra no final do século XIX, sempre achei que seria arcaico, com firulas demasiadas e um jeito de escrever que não fluiria. Logo, sempre classifiquei-o como um livro para ler “mais pra frente” – o clássico”depois” ou “outra hora”, o que significa quando tiver tempo e paciência para trocar histórias banais e envolventes por palavras densas que compõe tramas complexas de difícil compreensão, ou seja, quando o dia-a-dia possibilitar que pensamentos profundos e solitários habitem sua cabeça com exclusividade.

Toda essa situação propícia é rara de acontecer, como todos devem saber. Mas então o que me fez mudar de ideia e abrir um livro tão bonito quanto este? Bem, primeiro sua aparição repentina na minha casa. Sim, ele apareceu sem aviso prévio. Minha prima emprestou-o de um amigo e quando foi devolver, o amigo jurava que esse livro não era dele (mesmo tendo seu nome assinado, o que acho que nenhum dos dois verificou). Minha prima voltou com o livro pra casa e então me deu. Disse que, já que eu empresto tantos livros, talvez na minha estante ele fosse mais feliz e lido por mais pessoas. Oun. :). Eis então que, uns dias atrás, minha colega de apartamento disse que estava lendo Julio Verne e me convenceu a finalmente tirá-lo da estante para conhecer sua aventura tão emocionante…

E a primeira desconstrução do meu pré-julgamento ocorreu com seu jeito de escrever. Um jeito claro, dinâmico e de fácil compreensão que me espantou. Mesmo lidando com tantos termos técnicos (alguém mais já comparou o Professor Lidenbrock com o Sheldon?), ele constrói os diálogos e os pensamentos do personagem de forma simples, que nos faz aproveitar as informações e assimilá-las para acompanhar o raciocínio. Que, convenhamos, é bem maluco.

O título do livro já diz tudo. Sim, eles farão uma viagem ao centro da terra. Mas o que encontrarão e as aventuras que irão enfrentar eu nunca imaginaria de tal forma. Agora entendo porque dizem que Verne foi o precursor do gênero de ficção científica. Sua lábia francesa, consumida por uma imaginação literária  sensibilizada por temas político-sociais que valorizam a importância da ciência e da tecnologia me mostraram que há muito ainda para eu conhecer na minha própria imaginação. Vejam bem, o limite da imaginação é… espera, será que tem que existir um?

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Minha dica é essa: não julguem um livro pela capa, não julguem um autor pela sua idade e tampouco uma aventura por sua trama. 😉

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Franny and Zooey (J.D. Salinger)

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Mais uma vez me peguei agarrando um livro ao passar os olhos pelas estantes da livraria. Não consigo descrever o prazer que sinto em fazer isso. Assim como sinto prazer em ter uma boa conversa, tranquila, com quem quero conversar, com quem gosto de conversar. E esse livro é isso: uma boa conversa.

Ás vezes nós nos apoiamos nas palavras do outro para formar opinião. Ás vezes achamos as palavras e ações do outro tão ridículas que nos sentimos no direito de julgá-las, mudá-las, moldá-las ao que nós achamos, ao nosso padrão de certo e errado. Eu sou uma dessas pessoas, infelizmente. Minha teimosia põe a prova os gostos dos outros e muitas vezes limitou minhas convivências e, claro, refletiu meu respeito ao próximo. Tive que terminar uma faculdade e receber palavras fortes e diretas para enfim perceber quão ridícula agia. Quão desrespeitoso meu discurso sobre respeito estava sendo. Precisei de algumas boas conversas para moldar o que sou hoje. Ok, e o que isso tem a ver com o livro? Vamos lá.

Salinger cria belos personagens, para quem gosta do seu estilo – Para quem não gosta, apenas afirmemos que são personagens muito bem construídos. Tomemos por exemplo as pessoas que leram “O Apanhador no campo de centeio”, elas se dividem em quem gostou e quem não gostou do Holden. Sou parte do time Love-Holden, mas prometo não puxar o saco de ninguém, ok? Quero recomendar este livro de forma sincera.

Nesse livro, os personagens são igualmente intensos. Vejam bem, com personagens tão complexos e que possibilitam tantos níveis de interpretação, como enfeitar a história com uma trama brilhante? Exato. Neste livro, não lidamos com uma história cheia de acontecimentos, mudanças e reviravoltas. Lidamos com um passado, um presente e a busca por um futuro. Lidamos com diálogos, simples diálogos entre mãe e filho, irmãos e namorados. Diálogos que nos possibilitam analisar e fazer conexões de identificação com os personagens pelo caminho inverso: a descrição você quem faz, analisando os gestos, o modo de falar, o jeito de abordar um assunto ou as expressões que sucedem uma resposta. É isso, esse é o poder do livro. Logo, pode te levar por uma grande aventura no coração do lago das interpretações, ou apenas por um caminho simplista ao seu redor. A escolha é sua.

O livro é, na verdade, a junção de duas histórias publicadas na revista The New Yorker: “Franny” em 1955 e “Zooey” em 1957. Estes são os caçulas da família Glass, família que tem também papel central no outro livro de Salinger, intitulado “Raise High the Roof Beam, Carpenters” e “Seymour: An Introduction” (“Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira” e “Seymour, uma Introdução”) – livro que também reúne duas histórias publicadas na revista, e que pretendo adquirir em breve, by the way.

As histórias de Franny e de Zooey se casam ao debaterem, através de diálogos, a filosofia de vida de cada um dos irmãos e por discutirem sobre ceticismo, fé, comportamento e paz interior. Ambos tem um passado conturbado pela perda de dois dos sete filhos que compõe a família e, para ajudar, ambos andaram lendo um dos livros que encontraram no quarto antigo do seu irmão… E este livro abalou tudo o que sabiam sobre fé, sobre os outros e sobre si mesmos.

Só mais uma coisa: e ele (o livro) tem grandes sacadas, grandes frases e citações que te fazem parar, sorrir e dizer “é assim mesmo!”. Eu, lendo novamente minhas marcações, tive essas reações tudo de novo. Que prazer ter um bom livro em mãos, um que possa satisfazer tanto quanto uma boa conversa.

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Com carinho,

A.

Vaclav & Lena (H. Tanner)

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“Vaclav pensa em como, às vezes, quando está frio lá fora, você pode se sentir aquecido porque há pessoas ou lembranças de pessoas que o aquecem como uma fogueira, ou fazem você se sentir como um esquimó que não se incomoda muito com o frio extremo, mesmo que você sinta um frio extremo. Outras vezes você pode sentir que tudo no mundo inteiro está frio por certo motivo, e que está frio só pra você, e você vê todas as outras pessoas como um fogo para aquecê-las, e você tem a sensação de que vai sentir frio pra sempre. Às vezes a gente pode sentir um frio assim até no verão.” (TANNER, 2012, pág. 40).

Vaclav & Lena fala de coisas simples que podem ser interpretadas com a profundidade que você queria dar ao mergulho. Vide parágrafo acima: pode ser interpretado como a fala sem conexão e rápida de uma criança querendo explicar algo importante, pode ser simplesmente um exemplo metafórico do amor, ou ainda mostrar como a solidão e a saudade podem prejudicar até mesmo épocas mágicas como o verão. Fiz coro ao exagero, no entanto senti de verdade um pouquinho de cada sentimento. E pelas resenhas que li por aí, isso foi um fato que pode descrever o livro – ele permite interpretações variadas. A minha vai para um lado um pouco mais realista.

A estreia de Haley foi bem bacana. Eu compraria outros livros da autora para acompanhar sua evolução – porque tenho certeza de que ela irá melhorar; vejo coisas à melhorar na narração da história, na escrita e na descrição dos contextos e personagens, nada demais, mas detalhes aqui e ali que faltaram. No geral, ela me cativou por uma característica em particular: descrever situações com palavras simples e impactantes,  metáforas como a citada acima, que parecem não mostrar nada e, ao mesmo tempo, te mostram um buraco de significados implícitos. Gostei muito desse estilo dela escrever.

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Também é interessante ressaltar que o livro trata de assuntos sérios como abuso, o abandono e a perda. Apesar de não estarem aprofundados, estes temas contextualizam o romance e dão margem para discussão. Não sei se o considero um livro de para crianças, mas de fato o considero importante para adolescentes abrirem a cabeça para alguns assuntos. Acabei lendo outro livro em seguida deste, que abordava com maior profundidade estes temas, e o modo como os adultos guardam e lidam com traumas parecidos que sofreram na infância, me fizeram lembrar da trama do Vaclav e da Lena. Foi então que percebi como são parecidos os caminhos que as mentes percorreram, mesmo em personagens estranhos de tramas completamente diferentes. Conexões com a vida real não faltam.

O livro é separado em quatro partes: “Juntos”,  “Separados: Vaclav”, “Separados: Lena” e “Juntos outra vez”. Na primeira parte vemos um romance de crianças criativas com o sonho de estrelar um show de mágica. Sim, um mágico famoso e sua bela assistente treinam desde cedo e no meio dos treinos tropeçam nas suas primeiras problemáticas na escola e na família. Acompanhamos o crescimento de ambos nas suas respectivas perspectivas e acabamos encontrando-os já esbeltos adolescentes que buscam resolver os mistério das suas vidas na última parte.

Foi por meio dessa descoberta eu passei a entender com maior profundidade algumas realidades que desconhecia, foi por isso que dei atenção especial ao livro e considero sua história de grande motivação. Eu sei que enxergo beleza nos mais sutis detalhes, mas de fato repensei alguns julgamentos que já fiz por aí. Adoro quebrar barreiras na minha própria cabeça, por isso dei 4 estrelas pro livro. Só não estendo a minha interpretação aqui porque não quero deixar spoiler e tampouco conduzir a interpretação de vocês. Então leiam e, depois, quem sabe, podemos sentar para discutirmos a história? 😉

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# 2014: 6º

Título: Vaclav & Lena
Autora: Haley Tanner
Editora: Intrínseca
Páginas: 272

Skoob: nota 4/5

Com carinho,

A.